O setor de saneamento no Brasil passa por mudanças estruturais desde a aprovação do Marco Legal do Saneamento em 2020. As metas de universalização ficaram mais rígidas e com prazos definidos, pressionando empresas e órgãos públicos a reduzir desperdícios, cumprir cronogramas e melhorar a previsibilidade dos investimentos.
Em nosso webinar, apresentado por Diogo Reis, Especialista em Soluções para Saneamento da FF Solutions, o BIM foi apresentado como método para integrar dados, reduzir retrabalho e apoiar decisões ao longo do ciclo de vida dos ativos.
O cenário atual e o desafio da universalização
Atualmente, cerca de 84,1% da população brasileira tem acesso à água tratada, enquanto apenas 56% possuem coleta de esgoto. As metas do marco legal são claras: atingir 99% de cobertura de água e 90% de esgoto até 2033.
Para o esgoto, por exemplo, o Brasil precisa expandir sua infraestrutura em quase 50% a mais do que o que existe hoje em um prazo relativamente curto. Além da expansão, há o problema crítico das perdas: hoje, o índice médio de perda de água no país é de 39,5%, o que significa que quase 40 de cada 100 litros tratados se perdem antes de chegar às residências.
Diogo ressaltou que esse cenário impõe pressões regulatórias e riscos contratuais significativos para os operadores, tornando a busca por tecnologias de ponta, como o BIM, uma necessidade estratégica e não apenas uma opção.

O BIM como gestor da informação
O BIM é definido como uma metodologia de gestão da informação da construção. Diferente do desenho tradicional (CAD), o BIM utiliza modelos digitais inteligentes que integram dados geométricos, técnicos e operacionais.
— “O BIM facilita muito a colaboração entre equipes multidisciplinares”, afirmou Diogo
Destacando que o BIM minimiza a perda de informação e permite decisões mais rápidas e seguras ao longo de todo o ciclo. Um ponto essencial é que o BIM se aplica tanto a obras lineares (redes de água e coletores) quanto a unidades localizadas (estações de tratamento e bombeamento).
Definindo o ciclo de vida dos ativos
Para entender onde o BIM atua, no webinar, Diogo Reis, estruturou o ciclo de vida da infraestrutura de saneamento em quatro fases macro:
- Planejamento: Concepção, diagnóstico e viabilidade.
- Projeto: Modelagem detalhada, compatibilização e documentação.
- Obra (Execução): Construção física, controle financeiro e garantia de conformidade.
- Operação: Manutenção, monitoramento de desempenho e gestão de ativos ao longo de décadas.
O grande problema identificado nas empresas de saneamento é a falha na comunicação entre essas fases. Frequentemente, dados cruciais levantados no planejamento não chegam ao projetista, e informações de projeto se perdem antes de alcançar a equipe de obra ou operação, resultando em retrabalho e ineficiência.
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Fase 1: Estruturação do planejamento
Muitas vezes negligenciada, a fase de planejamento é a base de todo o empreendimento. Os desafios comuns incluem a falta de dados consolidados sobre o território e a baixa previsibilidade de custos.
Com o BIM, é possível criar modelagem conceitual e avaliar diferentes cenários de implantação antes de qualquer escavação. O webinar mostrou exemplos de simulações de estações de bombeamento de água, onde é possível estimar orçamentos e cronogramas de forma prévia.
Além disso, a integração com dados geoespaciais e ambientais permite entender o contexto urbano denso, identificando interferências com outras utilidades (energia, gás) logo na partida.
Fase 2: Desenvolvimento e compatibilização de projetos
Na fase de projeto, o maior “vilão” é o conflito entre disciplinas (hidráulica, elétrica, estrutural). O uso do BIM permite:
- Detecção automática de interferências: Identificar conflitos entre tubulações e estruturas ainda no modelo digital, evitando ajustes custosos no canteiro de obras.
- Extração de quantitativos: Gerar listas de materiais precisas diretamente do modelo, o que impacta positivamente o orçamento e o controle de custos.
- Bibliotecas inteligentes: O webinar demonstrou a inserção rápida de conexões e válvulas em modelos 3D, garantindo alta velocidade e confiabilidade na modelagem.
Fase 3: Controle e transparência na execução (Obras)
A execução é a fase de maior intensidade de capital e trabalho de campo. O BIM transforma a obra ao conectar o escritório ao canteiro através de um Ambiente Comum de Dados (CDE).
Durante a apresentação, destacou-se a possibilidade de usar dispositivos móveis para coletar dados em campo, registrar fotos e diários de obra, tudo integrado ao modelo central. Isso permite o acompanhamento do cronograma físico-financeiro em tempo real, comparando o que foi planejado com o que está sendo efetivamente construído.
Fase 4: Operação e a era dos gêmeos digitais
O grande benefício do BIM aqui é a rastreabilidade. Quando um operador precisa realizar uma manutenção corretiva, ele tem acesso a todo o histórico do ativo: quem foi o fornecedor, qual o manual de reparo e quando foi instalado.
Um dos momentos mais impactantes do webinar foi a demonstração da integração GIS (Sistemas de Informação Geográfica) e BIM. Diogo mostrou como um vazamento identificado no sistema GIS pode ser analisado dentro do modelo BIM para identificar exatamente quais registros devem ser fechados e quais tanques serão impactados.
Essa base estruturada é o que permite a criação de Gêmeos Digitais (Digital Twins), que suportam operações preditivas e otimizam a vida útil dos ativos.
Rodada de perguntas e respostas
A interação com o público trouxe insights práticos sobre a implementação do BIM:
- Trabalho Colaborativo na Nuvem: Ao ser questionado sobre a colaboração, Diogo enfatizou o conceito de Ambiente Comum de Dados (CDE). Ele explicou que este é o espaço central onde todos os atores (projetistas, construtoras, proprietários) acessam a mesma informação, estimulando a transparência e o alinhamento.
- Integração BIM e GIS: A chave para o sucesso é o uso de um identificador único ou código de rastreamento para cada ativo. Isso permite que os sistemas “conversem” entre si, unindo o contexto geográfico do GIS com o detalhamento técnico do BIM e os dados em tempo real do sistema supervisório (SCADA).
- Dados de Legado (Retroalimentação): Sobre a ausência de documentos de redes já existentes, Diogo esclareceu que o BIM pode ser retroalimentado de forma viável através de levantamentos de campo integrados ao repositório central, ajudando empresas que assumem novas concessões a estruturar sua base de dados.
Como iniciar a jornada BIM
Para as organizações que desejam começar, o especialista recomendou um roteiro de quatro passos fundamentais:
- Diagnóstico Inicial: Avaliar processos atuais e desafios prioritários.
- Definição de Objetivos: Estabelecer metas e casos de uso prioritários.
- Estruturação de Governança: Criar manuais, planos executivos e estabelecer o Ambiente Comum de Dados.
- Capacitação e Pilotos: Treinar equipes e testar a metodologia em projetos controlados antes da escala total.
Assista ao webinar completo
Este artigo reúne os principais destaques, mas a discussão completa traz o contexto, os exemplos e os argumentos apresentados do início ao fim. Se o tema é relevante para você, vale conferir o conteúdo na integra no YouTube.
FAQ – Perguntas frequentes
O que é BIM e por que ele é importante para o setor de saneamento?
R: O BIM é uma metodologia de gestão integrada da informação, baseada em modelos digitais inteligentes que reúnem dados geométricos, técnicos e operacionais. Isso melhora a colaboração entre equipes e aumenta a precisão das decisões ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos de água e esgoto.
Qual é o panorama atual do saneamento no Brasil e quais são as metas?
R: Atualmente, 84,1% da população tem acesso à água tratada, enquanto 56% contam com coleta de esgoto. As metas do Marco Legal para 2033 exigem ampliar esses índices para 99% de água e 90% de esgoto, demandando grande expansão de infraestrutura.
Em quais etapas do ciclo de vida dos ativos o BIM atua?
R: O BIM está presente desde o Planejamento, passando por Projeto e Execução, até chegar à Operação, garantindo continuidade e melhor fluxo de informação entre as fases, um dos principais desafios enfrentados hoje no setor.
Quais benefícios o BIM traz na prática?
R: Ele reduz retrabalhos ao identificar interferências entre disciplinas, gera quantitativos automáticos, facilita estimativas de custo e prazo, integra dados geoespaciais, melhora o controle da obra via CDE e, na operação, garante rastreabilidade e suporte a gêmeos digitais.
Como iniciar a implementação do BIM em uma organização de saneamento?
R: O processo envolve quatro passos recomendados: realizar um diagnóstico, definir objetivos e casos de uso, estruturar a governança e o CDE, e começar por projetos‑piloto para capacitação e validação interna.



