
Neste episódio, os hosts Júlio Ribeiro e Lucas Tafarello receberam Marcel Sanches, Diretor de Planejamento e Projetos de Engenharia na Sabesp e ex-Presidente Nacional da ABES, para conversar sobre o papel da engenharia digital na maior companhia de saneamento do mundo. A conversa percorre a trajetória de Marcel, a construção de uma metodologia própria de engenharia digital na Sabesp, o programa Integra Tietê e os desafios da universalização do saneamento no Brasil.
Sobre o convidado
Marcel Sanches é engenheiro civil formado em 2004, com aperfeiçoamento em regulação de serviços públicos e certificação CP3P em modelagem de PPPs e concessões pelo PMG e Banco Mundial. Iniciou a carreira como técnico em edificações pela ETEC Getúlio Vargas, passou cinco anos na Prefeitura de São Paulo atuando na gestão de áreas de risco e integrou a Sabesp há mais de 15 anos, percorrendo operação, planejamento e regulação antes de assumir a Diretoria de Planejamento e Projetos de Engenharia. É também Governador do Conselho Mundial da Água, ex-Presidente Nacional da ABES e membro do CONESAN.
Destaques do episódio
Como a Sabesp transformou tecnologia em ferramenta de decisão estratégica
Marcel descreve uma virada que levou anos para se consolidar dentro da Sabesp, durante muito tempo, tecnologia era pauta de operação, algo que otimizava processos existentes sem mudar a forma de planejar o negócio. Isso foi se transformando conforme a companhia estruturou sua própria metodologia de engenharia digital.
O CDE (Ambiente Comum de Dados) é um marco dessa transição. Falar em CDE hoje na Sabesp, segundo Marcel, já é pressuposto e não proposta. Esse tipo de consolidação levou anos e investimento contínuo, e Marcel é direto ao dizer que as primeiras iniciativas de ambiente comum de dados não se resolveram em dois anos. O que essa maturidade permite é levar tecnologia para a mesa onde se decidem expansão de serviços, metas de universalização e planejamento de longo prazo.
O Integra Tietê e a engenharia digital em um programa de infraestrutura em larga escala
A despoluição do Rio Tietê é um dos maiores programas de infraestrutura de saneamento em curso no estado de São Paulo. A escala não é só geográfica, a complexidade está na integração entre áreas com lógicas distintas, em cronogramas longos e num volume de dados que só se torna gerenciável com estrutura digital bem estabelecida.
Marcel trata o Integra Tietê como um caso que coloca a engenharia digital diante de desafios de governança e coordenação que dificilmente se resolveriam de outra forma. Sem modelos que conectem dados de projeto, operação e campo, coordenar um programa com esse nível de complexidade se torna inviável na prática. O programa também evidencia a relação direta entre cobertura de esgoto e recuperação ambiental: ampliar coleta e tratamento não é só uma meta regulatória, é condição para que a despoluição do Tietê avance.
IA aplicada à rede: do planejamento preditivo ao que a Sabesp já opera hoje
A Sabesp utiliza detecção via satélite para identificar zonas de pressão na rede com maior propensão a vazamento, cruzando variáveis como idade da tubulação e histórico de falhas. Essa capacidade preditiva já está em operação dentro da companhia, mesmo que ainda não esteja distribuída por todo o sistema.
Estudos de viabilidade econômico-financeira que antes mobilizavam dias de trabalho de quatro ou cinco engenheiros são feitos hoje em uma fração desse tempo, com IA acoplada a sistemas de modelagem. Marcel estima redução de tempo da ordem de 90%. A posição que ele defende não é de substituição, mas de equilíbrio entre capacidade humana e ferramenta.

