
Neste episódio, os hosts Júlio Ribeiro e Lucas Tafarello receberam Cibele Alves, engenheira civil e chefe do Departamento de Consistência e Inovação de Projetos da CPTM, para conversar sobre o que significa implantar e amadurecer BIM no setor ferroviário, um dos segmentos mais complexos da infraestrutura nacional. A conversa percorre a trajetória de Cibele, os ganhos concretos da metodologia em projetos multidisciplinares, a meta da companhia de gerenciar 100% dos empreendimentos via BIM até 2027 e o trabalho do GT10 do BIM Fórum Brasil para padronizar o setor.
Sobre o convidado
Cibele Alves é engenheira civil com mestrado em tecnologias computacionais para construção civil e especialização em BIM aplicado a obras de infraestrutura e tecnologias ferroviárias. Iniciou a carreira no mercado privado, em construtoras voltadas a shoppings e hospitais, e ingressou na CPTM por concurso, onde atua há mais de uma década. Chefia hoje o Departamento de Consistência e Inovação de Projetos da companhia e coordena o GT10 do BIM Fórum Brasil, grupo dedicado à digitalização e interoperabilidade no setor ferroviário. É também professora nos cursos de graduação e pós-graduação em engenharia na Universidade Paulista e preside a Associação dos Engenheiros da CPTM.
Destaques do episódio
BIM na ferrovia: por que um projeto pode mobilizar 42 profissionais e gerar mais de 2.000 documentos
A complexidade de um empreendimento ferroviário não se compara a uma edificação convencional. Um único projeto desenvolvido internamente na CPTM pode envolver mais de 40 profissionais, produzir mais de dois mil documentos e exigir integrações entre disciplinas de arquitetura, infraestrutura, drenagem, sistemas, telecomunicações e geometria de via, sem contar os inputs das áreas de operação, manutenção e implantação.
Esse volume de informação só se torna gerenciável com uma estrutura digital bem estabelecida. O BIM não resolve apenas o retrabalho técnico que ocorre quando disciplinas trabalham em silos. Ele coloca profissionais de áreas distintas num ambiente colaborativo onde decisões complexas podem ser tomadas com dados mais confiáveis. Para uma operadora como a CPTM, que já chegou a transportar 3 milhões de passageiros por dia, esse ganho de qualidade na concepção tem efeito direto no desempenho e na segurança do ativo.
A meta BIM 2027 da CPTM e o desafio de integrar gêmeos digitais à infraestrutura ferroviária
A CPTM tem como meta gerenciar 100% de seus empreendimentos via BIM até 2027. Isso inclui frentes de trabalho em gêmeos digitais e integração GIS-BIM, área que Cibele descreve como central para operadoras que lidam com ativos lineares em grandes extensões territoriais. Uma companhia que opera linhas por dezenas de quilômetros não pode depender de deslocamento físico para ter acesso confiável às informações do ativo.
O caminho, porém, não é direto. Equipamentos ferroviários com requisitos específicos de segurança impõem restrições de propriedade intelectual que limitam o acesso a dados em tempo real. Há sistemas legados dentro dos centros de controle operacional que precisam ser avaliados antes de qualquer migração. A questão da governança, o que pode ser publicado e o que precisa de proteção, ainda está em desenvolvimento dentro da companhia. O que Cibele deixa claro é que, independentemente do nível de automação, ter um modelo fiel ao que está instalado em campo já representa um ganho concreto para a gestão e a inspeção de ativos.
GT10 do BIM Fórum Brasil: como uma rede de mais de 40 especialistas está estruturando o BIM ferroviário no país
O BIM Fórum Brasil tem um grupo de trabalho dedicado ao setor ferroviário: o GT10. Coordenado por Cibele e composto por mais de 40 organizações, o grupo reúne operadores de passageiros e de carga, projetistas, fiscalizadores e órgãos de controle. É patrocinado pela NTT e tem entregas previstas dentro de um ano.
Entre os objetivos estão a criação de uma biblioteca nacional de objetos BIM para ativos ferroviários, o desenvolvimento de melhores práticas para captura em campo, a publicação de cursos EAD gratuitos em âmbito nacional e o avanço na padronização de sistemas de classificação para o setor. A curadoria conta com professores da USP, especialistas do Metrô de São Paulo e profissionais com histórico consolidado em digitalização de infraestrutura. Para acompanhar o desenvolvimento, o caminho é ser membro do BIM Fórum Brasil ou aguardar a disponibilização dos materiais na plataforma da NTT.


